Lima Barreto - Triste Fim de Policarpo Quaresma - 03 / 15









Lima Barreto - O Triste Fim de Policarpo Quaresma


III - A Notícia do Genelício


- Então quando se casa, Dona Ismênia?

- Em Março. Cavalcanti já está formado e... Afinal a filha do general pôde responder com segurança à pergunta que se lhe vinha fazendo há quase cinco anos. O noivo finalmente encontrara o fim do curso de dentista e marcara o casamento para daí a três meses. A alegria foi grande na família; e, como em tal caso, uma alegria não podia passar sem baile, uma festa foi anunciada para o sábado que se seguia ao pedido da pragmática. As irmãs da noiva, Quinota, Zizi, Lalá e Vivi, estavam mais contentes que a irmã nubente. Parecia que ela lhes ia deixar o caminho desembaraçado, e fora a irmã quem até ali tinha impedido que se casassem. Noiva havia quase cinco anos, Ismênia já se sentia meio casada. Esse sentimento junto à sua natureza pobre fê-la não sentir um pouco mais de alegria. Ficou no mesmo. Casar, para ela, não era negócio de paixão, nem se inseria no sentimento ou nos sentidos: era uma idéia, uma pura idéia. Aquela sua inteligência rudimentar tinha separado da idéia de casar o amor, o prazer dos sentidos, uma tal ou qual liberdade, a maternidade, até o noivo. Desde menina, ouvia a mamãe dizer: “Aprenda a fazer isso, porque quando você se casar”... ou senão “Você precisa aprender a pregar botões, porque quando você se casar”... A todo instante e a toda a hora, lá vinha aquele - “porque quando você se casar”... - e a menina foi-se convencendo de que toda a existência só tendia para o casamento. A instrução, as satisfações íntimas, a alegria, tudo isso era inútil; a vida se resumia numa cousa: casar. De resto, não era só dentro de sua família que ela encontrava aquela preocupação. No colégio, na rua, em casa das famílias conhecidas, só se falava em casar. “Sabe, Dona Maricota, a Lili casou-se; não fez grande negócio, pois parece que o noivo não é lá grande cousa”; ou então: “A Zezé está doida para arranjar casamento, mas é tão feia, meu Deus!”... A vida, o mundo, a variedade intensa dos sentimentos, das idéias, o nosso próprio direito à felicidade, foram parecendo ninharias para aquele cerebrozinho; e, de tal forma casar-se se lhe representou cousa importante, uma espécie de dever, que não se casar, ficar solteira, “tia”, parecia-lhe um crime, uma vergonha. De natureza muito pobre, sem capacidade para sentir qualquer cousa profunda e intensamente, sem quantidade emocional para a paixão ou para um grande afeto, na sua inteligência a idéia de “casarse” incrustou-se teimosamente como uma obsessão. Ela não era feia; amorenada, com os seus traços acanhados, o narizinho malfeito, mas galante, não muito baixa nem muito magra e a sua aparência de bondade passiva, de indolência de corpo, de idéia e de sentidos - era até um bom tipo das meninas a que os namorados chamam - “bonitinhas”. O seu traço de beleza dominante, porém, eram os seus cabelos: uns bastos cabelos castanhos, com tons de ouro, sedoso até ao olhar. Aos dezenove anos arranjou namoro com o Cavalcanti, e à fraqueza de sua vontade e ao temor de não encontrar marido não foi estranha a facilidade com que o futuro dentista a conquistou.

O pai fez má cara. Ele andava sempre a par dos namoros das filhas: “Diga-me sempre, Maricota dizia ele - quem são. Olho vivo!... É melhor prevenir que curar... Pode ser um valdevinos e...” Sabendo que o pretendente à Ismênia era um dentista, não gostou muito. Que é um dentista? perguntava ele de si para si. Um cidadão semiformado, uma espécie de barbeiro. Preferia um oficial, tinha montepio e meio soldo; mas a mulher convenceu-o de que os dentistas ganham muito, e ele acedeu. Começou então Cavalcanti a freqüentar a casa na qualidade de noivo “paisano”, isto é, que não pediu, não é ainda “oficial”. No fim do primeiro ano, tendo notícia das dificuldades com que o futuro genro lutava para acabar os estudos, o general foi generosamente em seu socorro. Pagou-lhe taxas de matrículas, livros e outras cousas. Não era raro que após uma longa conversa com a filha, Dona Maricota viesse ao marido e dissesse: “Chico, arranja-me vinte mil-réis que o Cavalcanti precisa comprar uma Anatomia.” O general era leal, bom e generoso; a não ser a sua pretensão marcial, não havia no seu caráter a mínima falha. Demais, aquela necessidade de casar as filhas ainda o fazia melhor quando se tratava dos interesses delas. Ele ouvia a mulher, coçava a cabeça e dava o dinheiro; e até para evitar despesas ao futuro genro, convidou-o a jantar em casa todo o dia; e assim o namoro foi correndo até ali. Enfim - dizia Albernaz à mulher, na noite do pedido, quando já recolhidos - a cousa vai acabar. Felizmente, respondia-lhe Dona Maricota, vamos descontar esta letra. A satisfação resignada do general era porém falsa; ao contrário: ele estava radiante. Na rua, se encontrava um camarada, no primeiro momento azado, lá dizia ele:

- É um inferno, esta vida! Imagina tu, Castro, que ainda por cima tenho que casar uma filha! Ao que Castro interrogava:

-Qual delas?

- A Ismênia, a segunda, respondia Albernaz e logo acrescentava: tu é que és feliz: só tiveste filhos.

- Ah! meu amigo! falava o outro cheio de malícia, aprendi a receita. Por que não fizeste o mesmo? Despedindo-se, o velho Albernaz corria aos armazéns, às lojas de louça, comprava mais pratos, mais compoteiras, um centro de mesa, porque a festa devia ser imponente e ter um ar de abundância e riqueza que traduzisse o seu grande contentamento. Na manhã do dia da festa comemorativa do pedido, Dona Maricota amanheceu cantando. Era raro que o fizesse; mas nos dias de grande alegria, ela cantarolava uma velha ária, uma cousa do seu tempo de moça e as filhas que sentiam nisto sinal certo de alegria corriam a ela, pedindo-lhe isto ou aquilo. Muito ativa, muito diligente, não havia dona-de-casa mais econômica, mais poupada e que fizesse render mais o dinheiro do marido e o serviço das criadas. Logo que despertou, pôs tudo em atividade, as criadas e as filhas. Vivi e Quinota foram para os doces; Lalá e Zizi auxiliaram as raparigas na arrumação das salas e dos quartos, enquanto ela e Ismênia iam arrumar a mesa, dispô-la com muito gosto e esplendor. O móvel ficaria assim galhardo desde as primeiras horas do dia. A alegria de Dona Maricota era grande; ela não compreendia que uma mulher pudesse viver sem estar casada. Não eram só os perigos a que se achava exposta, a falta de arrimo; parecia-lhe feio e desonroso para a família. A sua satisfação não vinha do simples fato de ter descontado uma letra, como ela dizia. Vinha mais profundamente dos seus sentimentos maternos e de família. Ela arrumava a mesa, nervosa e alegre; e a filha fria e indiferente.

- Mas, minha filha, dizia ela, até parece que não é você quem se vai casar! Que cara! Você parece aí uma “mosca-morta”.

- Mamãe, que quer que eu faça?

- Não é bonito rir-se muito, andar aí como uma sirigaita, mas também assim como você está! Eu nunca vi noiva assim.

Durante uma hora, a moça esforçou-se por parecer muito alegre, mas logo lhe tornava toda a pobreza de sua natureza, incapaz de vibração sentimental, e o natural do seu temperamento vencia-a e não tardava em cair naquela doentia lassidão que lhe era própria. Veio muita gente. Além das moças e as respeitáveis mães, acudiram ao convite do general o Contra-Almirante Caldas, o Doutor Florêncio, engenheiro das Águas, o Major honorário Inocêncio Bustamante, o Senhor Bastos, guarda-livros, ainda parente de Dona Maricota, e outras pessoas importantes. Ricardo não fora convidado porque o general temia a opinião pública sobre a presença dele em festa séria; Quaresma o fora, mas não viera; e Cavalcanti jantara com os futuros sogros. Às seis horas, a casa já estava cheia. As moças cercavam Ismênia, cumprimentando-a, não sem um pouco de inveja no olhar. Irene, uma alourada e alta, aconselhava:

-Eu, se fosse você, comprava tudo no Parque. Tratava-se do enxoval. Todas elas, embora solteiras, davam conselhos, sabiam as casas barateiras, as peças mais importantes e as que podiam ser dispensadas. Estavam a par. A Armanda indicava com um requebro feiticeiro nos olhos:

- Eu, ontem, vi na Rua da Constituição um dormitório de casal, muito bonito, você por que não vai ver, Ismênia? Parece barato. A Ismênia era a menos entusiasmada, quase não respondia às perguntas; e, se as respondia, era por monossílabos. Houve um momento em que sorriu quase com alegria e abandono. Estefânia, a doutora, normalista, que tinha nos dedos um anel, com tantas pedras que nem uma joalheria, num dado momento, chegou a boca carnuda aos ouvidos da noiva e fez uma confidência. Quando deixou de segredar-lhe assim como se quisesse confirmar o dito, dilatou muito os seus olhos maliciosos e quentes, e disse alto:

- Eu quero ver isso... Todas dizem que não... Eu sei... Ela aludia à resposta que, à sua confidência, Ismênia tinha dado com parcimônia: qual o quê! Todas elas, conversando, tinham os olhos no piano. Os rapazes e uma parte dos velhos rodeavam Cavalcanti, muito solene, dentro de um grande fraque preto.

- Então, Doutor, acabou, hein? dizia este a jeito de um cumprimento.

- É verdade! Trabalhei. Os senhores não imaginam os tropeços, os embargos - fui de um heroísmo!...

- Conhece o Chavantes? perguntava um outro.

- Conheço. Um crônico, um pândego...

- Foi seu colega?

- Foi, isto é, ele é do curso de Medicina. Matriculamo-nos no mesmo ano. Cavalcanti ainda não tinha tido tempo de atender a este e já era obrigado a ouvir a observação de outro.

- É muito bonito ser formado. Se eu tivesse ouvido meu pai, não estava agora a quebrar a cabeça no Deve e Haver. Hoje, torço a orelha e não sai sangue.

- Atualmente, não vale nada, meu caro senhor, dizia modestamente Cavalcanti. Com essas academias livres... Imaginem que já se fala numa Academia Livre de Odontologia! É o cúmulo! Um curso difícil e caro, que exige cadáveres, aparelhos, bons professores, como é que particulares poderão mantê-lo? Se o governo mantém mal...

- Pois doutor, acudia um outro, dou-lhe meus parabéns. Digo-lhe o que disse ao meu sobrinho, quando se formou: vá furando!

- Ah! Seu sobrinho é formado? inquiria delicadamente Cavalcanti.

- Em engenharia. Está no Maranhão, na Estrada de Caxias.

- Boa carreira. Nos intervalos da conversa, todos eles olhavam o novel dentista como se fosse um ente sobrenatural. Para aquela gente toda, Cavalcanti não era mais um simples homem, era homem e mais alguma cousa sagrada e de essência superior; e não juntavam à imagem que tinham dele atualmente as

cousas que porventura ele pudesse saber ou tivesse aprendido. Isto não entrava nela de modo algum; e aquele tipo, para alguns, continuava a ser vulgar, comum, na aparência, mas a sua substância tinha mudado, era outra diferente da deles e fora ungido de não sei que cousa vagamente fora da natureza terrestre, quase divina. Para o lado de Cavalcanti, que se achava na sala de visitas, vieram os menos importantes. O general ficara na sala de jantar, fumando, cercado dos mais titulados e dos mais velhos. Estavam com ele o Contra-Almirante Caldas, o Major Inocêncio, o Doutor Florêncio e o Capitão de Bombeiros Segismundo. Inocêncio aproveitou a ocasião para fazer uma consulta a Caldas sobre assunto de legislação militar. O contra-almirante era interessantíssimo. Na Marinha, por pouco que não fazia pendant com Albernaz no Exército. Nunca embarcara, a não ser na guerra do Paraguai, mas assim mesmo por muito pouco tempo. A culpa, porém, não era dele. Logo que se viu primeiro-tenente, Caldas foi aos poucos se metendo consigo, abandonando a roda dos camaradas, de forma que, sem empenhos e sem amigos nos altos lugares, se esqueciam dele e não lhe davam comissões de embarque. É curiosa essa cousa das administrações militares: as comissões são merecimento, mas só se as dá aos protegidos. Certa vez, quando era já capitão-tenente, deram-lhe um embarque em Mato Grosso. Nomearam-no para comandar o couraçado “Lima Barros”. Ele lá foi, mas, quando se apresentou ao comandante da flotilha, teve notícia de que não existia no rio Paraguai semelhante navio. Indagou daqui e dali e houve quem aventurasse que podia ser que o tal “Lima Barros” fizesse parte da esquadrilha do Alto-Uruguai. Consultou o comandante.

- Eu, no seu caso, disse-lhe o superior, partia imediatamente para a flotilha do Rio Grande. Ei-lo a fazer malas para o Alto-Uruguai, onde chegou enfim, depois de uma penosa e fatigante viagem. Mas aí também não estava o tal “Lima Barros”. Onde estaria então? Quis telegrafar para o Rio de Janeiro, mas teve medo de ser censurado, tanto mais que não andava em cheiro de santidade. Esteve assim um mês em Itaqui, hesitante, sem receber soldo e sem saber que destino tomar. Um dia lhe veio na intenção de ir ao extremo norte e quando passou pelo Rio, conforme a praxe, apresentou-se às altas autoridades da Marinha. Foi preso e submetido a conselho. O “Lima Barros” tinha ido a pique, durante a guerra do Paraguai. Embora absolvido, nunca mais entrou em graça dos ministros e dos seus generais. Todos o tinham na conta de parvo, de um comandante de opereta que andava à cata do seu navio pelos quatro pontos cardeais. Deixaram-no “encostado”, como se diz na gíria militar, e ele levou quase quarenta anos para chegar de guarda-marinha a capitão-de-fragata. Reformado no posto imediato, com graduação do seguinte, todo o seu azedume contra a Marinha se concentrou num longo trabalho de estudar leis, decretos, alvarás, avisos, consultas, que se referisse a promoções de oficiais. Comprava repertórios de legislação, armazenava coleções de leis, relatórios, e encheu a casa de toda essa enfadonha e fatigante literatura administrativa. Os requerimentos, pedindo a modificação de sua reforma, choviam sobre os ministros da Marinha. Corriam meses o infinito rosário de repartições e eram sempre indeferidos, sobre consultas do Conselho Naval ou do Supremo Tribunal Militar. Ultimamente constituíra advogado junto à justiça federal e lá andava ele de cartório em cartório, acotovelando-se com meirinhos, escrivães, juízes e advogados - esse poviléu rebarbativo do foro que parece ter contraído todas as misérias que lhe passam pelas mãos e pelos olhos. Inocêncio Bustamante também tinha a mesma mania demandista. Era renitente, teimoso, mas servil e humilde. Antigo voluntário da pátria, possuindo honras de major, não havia dia em que não fosse ao quartel-general ver o andamento do seu requerimento e de outros. Num pedia inclusão no Asilo dos Inválidos, noutro honras de tenente-coronel, noutro tal ou qual medalha; e, quando não tinha nenhum, ia ver a dos outros. Não se pejou mesmo de tratar do pedido de um maníaco que, por ser tenente honorário e também da Guarda Nacional, requereu lhe fosse passada a patente de major, visto que dous galões mais outros dous fazem quatro - o que quer dizer: major. Conhecedor dos estudos meticulosos do almirante, Bustamante fez a sua consulta.

- Assim de pronto, não sei. Não é a minha especialidade o Exército, mas vou ver. Isto também anda tão atrapalhado! Acabando de responder coçava um dos seus favoritos brancos, que lhe davam um ar de “comodoro” ou de chacareiro português, pois era forte nele o tipo lusitano.

- Ah! meu tempo, observou Albernaz. Quanta ordem! Quanta disciplina!

- Não há mais gente que preste, disse Bustamante. Segismundo por aí aventurou também a sua opinião, dizendo:

-Eu não sou militar, mas...

- Como não é militar? fez Albernaz com ímpeto. Os senhores é que são os verdadeiros: estão sempre com o inimigo na frente, não acha Caldas?

- Decerto, decerto, fez o almirante cofiando os favoritos.

- Como ia dizendo, continuou Segismundo, apesar de não ser militar, eu me animo a dizer que a nossa força está muito por baixo. Onde está um Porto Alegre, um Caxias?

- Não há mais, meu caro, confirmou com voz tênue o Doutor Florêncio.

- Não sei por quê, pois tudo hoje não vai pela ciência? Fora Caldas quem falara, tentando a ironia. Albernaz indignou-se e retrucou-lhe com certo calor:

- Eu queria ver esses meninos bonitos, cheios de “xx” e “yy” em Curupaiti, hein, Caldas? hein, Inocêncio? O Doutor Florêncio era o único paisano da roda. Engenheiro e empregado público, os anos e o sossego da vida lhe tinham feito perder todo o saber que porventura pudesse ter tido ao sair da escola. Era mais um guarda de encanamentos do que mesmo um engenheiro. Morando perto de Albernaz, era raro que não viesse toda a tarde jogar o solo com o general. O Doutor Florêncio perguntou:

- O senhor assistiu, não foi, general? O general não se deteve, não se atrapalhou, não gaguejou e disse com a máxima naturalidade:

- Não assisti. Adoeci e vim para o Brasil nas vésperas. Mas tive muitos amigos lá: o Camisão, o Venâncio... Todos se calaram e olharam a noite que chegava. Da janela da sala onde estavam, não se via nem um monte. O horizonte estava circunscrito aos fundos dos quintais das casas vizinhas com as suas cordas de roupa a lavar, suas chaminés e o piar de pintos. Um tamarineiro sem folhas lembrava tristemente o ar livre, as grandes vistas sem fim. O sol já tinha desaparecido do horizonte e as tênues luzes dos bicos de gás e dos lampiões familiares começavam a acender-se por detrás das vidraças. Bustamante quebrou o silêncio:

- Este país não vale mais nada. Imaginem que o meu requerimento, pedindo honras de tenente- coronel, está no ministério há seis meses!

- Uma desordem, exclamaram todos. Era noite. Dona Maricota chegou até onde eles estavam, muito ativa, muito diligente e com o rosto aberto de alegria.

- Estão rezando? E logo ajuntou: dão licença que diga uma cousa ao Chico, sim? Albernaz saiu fora da roda dos amigos e foi até a um canto da sala, onde a mulher lhe disse alguma cousa em voz baixa. Ouviu a mulher, depois voltou aos amigos e, no meio do caminho, falou alto, nestes termos:

- Se não dançam é porque não querem. Estou pegando alguém? Dona Maricota aproximou-se dos amigos do marido e explicou:

- Os senhores sabem: se a gente não animar, ninguém tira par, ninguém toca. Estão lá tantas moças, tantos rapazes, é uma pena!

- Bem; eu vou lá, disse Albernaz. Deixou os amigos e foi à sala de visitas dar começo ao baile.

- Vamos, meninas! Então o que é isso? Zizi, uma valsa!

E ele mesmo em pessoa ia juntando os pares: “Não, general, já tenho par”, dizia uma moça. “Não faz mal”, retrucava ele, “dance com o Raimundinho; o outro espera.” Depois de ter dado início ao baile, veio para a roda dos amigos, suando, mas contente.

- Isto de família! Qual! A gente até parece bobo, dizia. Você é que fez bem, Caldas; não se quis casar!

- Mas tenho mais filhos que você. Só sobrinhos, oito; e os primos?

- Vamos jogar o solo, convidou Albernaz.

- Somos cinco, como há de ser? observou Florêncio.

- Não, eu não jogo, disse Bustamante.

- Então jogamos os quatro de garrancho? lembrou Albernaz. As cartas vieram e também uma pequena mesa de tripeça. Os parceiros sentaram-se e tiraram a sorte para ver quem dava. Coube a Florêncio dar. Começaram. Albernaz tinha um ar atento quando jogava: a cabeça lhe caía sobre as costas e os seus olhos tomavam uma grande expressão de reflexão. Caldas aprumava o busto na cadeira e jogava com a serenidade de um lorde-almirante numa partida de whist. Segismundo jogava com todo o cuidado, com o cigarro no canto da boca e a cabeça do lado para fugir à fumaça. Bustamante fora à sala ver as danças. Tinham começado a partida, quando Dona Quinota, uma das filhas do general, atravessou a sala e foi beber água. Caldas, coçando um dos favoritos, perguntou à moça:

- Então, Dona Quinota, quedê o Genelício? A moça virou o rosto com faceirice, deu um pequeno muxoxo e respondeu com falso mau humor:

-Ué! Sei lá! Ando atrás dele?

- Não precisa zangar-se, Dona Quinota; é uma simples pergunta, advertiu Caldas. O general, que examinava atentamente as cartas recebidas, interrompeu a conversa com voz grave:

-Eu passo. Dona Quinota retirou-se. Este Genelício era o seu namorado. Parente ainda de Caldas, tinha-se como certo o seu casamento na família. A sua candidatura era favorecida por todos. Dona Maricota e o marido enchiam-no de festas. Empregado do Tesouro, já no meio da carreira, moço de menos de trinta anos, ameaçava ter um grande futuro. Não havia ninguém mais bajulador e submisso do que ele. Nenhum pudor, nenhuma vergonha! Enchia os chefes e os superiores de todo o incenso que podia. Quando saía, remancheava, lavava três ou quatro vezes as mãos, até poder apanhar o diretor na porta. Acompanhava-o, conversava com ele sobre o serviço, dava pareceres e opiniões, criticava este ou aquele colega, e deixava-o no bonde, se o homem ia para casa. Quando entrava um ministro, fazia-se escolher como intérprete dos companheiros e deitava um discurso; nos aniversários de nascimento, era um soneto que começava sempre por - “Salve” - e acabava também por - “Salve! Três vezes Salve!” O modelo era sempre o mesmo; ele só mudava o nome do ministro e punha a data. No dia seguinte, os jornais falavam do seu nome, e publicavam o soneto. Em quatro anos, tinha tido duas promoções e agora trabalhava para ser aproveitado no Tribunal de Contas, a se fundar, num posto acima. Na bajulação e nas manobras para subir, tinha verdadeiramente gênio. Não se limitava ao soneto, ao discurso; buscava outros meios, outros processos. No intuito de anunciar aos ministros e diretores que tinha uma erudição superior, de quando em quando desovava nos jornais longos artigos sobre contabilidade pública. Eram meras compilações de bolorentos decretos, salpicadas aqui e ali com citações de autores franceses ou portugueses. Interessante é que os companheiros o respeitavam, tinham em grande conta o seu saber e ele vivia na seção cercado do respeito de um gênio, um gênio do papelório e das informações. Acresce que Genelício juntava à sua segura posição administrativa um curso de direito a acabar; e tantos títulos juntos não podiam deixar de impressionar favoravelmente às preocupações casamenteiras do casal Albernaz. Fora da repartição, tinha um empertigamento que o seu pobre físico fazia cômico, mas que a convicção do alto auxílio que prestava ao Estado mantinha e sustentava. Um empregado modelo!

O jogo continuava silenciosamente e a noite avançava. No fim das “mãos” fazia-se um breve comentário ou outro, e no começo ouviam-se unicamente as “falas” sacramentais do jogo: “solo, bolo, melhoro, passo”. Feitas elas, jogava-se em silêncio; da sala, porém, vinha o ruído festivo das danças e das conversas.

- Olhem quem está aí!

- O Genelício, fez Caldas. Onde estiveste, rapaz? Deixou o chapéu e a bengala numa cadeira e fez os cumprimentos. Pequeno, já um tanto curvado, chupado de rosto, com um pince-nez azulado, todo ele traía a profissão, os seus gostos e hábitos. Era um escriturário.

- Nada, meus amigos! Estou tratando dos meus negócios.

- Vão bem? perguntou Florêncio.

- Quase garantido. O ministro prometeu... Não há nada, estou bem “cunhado”!

- Estimo muito, disse o general.

- Obrigado. Sabe de uma cousa, general?

- O que é?

- O Quaresma está doido.

- Mas... o quê? Quem foi que te disse?

- Aquele homem do violão. Já está na casa de saúde...

- Eu logo vi, disse Albernaz, aquele requerimento era de doido.

- Mas não é só, general, acrescentou Genelício. Fez um ofício em tupi e mandou ao ministro.

- É o que eu dizia, fez Albernaz.

- Quem é? perguntou Florêncio.

- Aquele vizinho, empregado do Arsenal; não conhece?

- Um baixo, de pince-nez?

-Este mesmo, confirmou Caldas.

- Nem se podia esperar outra cousa, disse o Doutor Florêncio. Aqueles livros, aquela mania de leitura...

- Pra que ele lia tanto? indagou Caldas.

- Telha de menos, disse Florêncio. Genelício atalhou com autoridade:

-Ele não era formado, para que meter-se em livros?

- É verdade, fez Florêncio.

- Isto de livros é bom para os sábios, para os doutores, observou Segismundo.

- Devia até ser proibido, disse Genelício, a quem não possuísse um título “acadêmico” ter livros. Evitavam-se assim essas desgraças. Não acham?

- Decerto, disse Albernaz.

- Decerto, fez Caldas.

- Decerto, disse Segismundo. Calaram-se um instante, e as atenções convergiram para o jogo.

- Já saíram todos os trunfos?

- Contasse, meu amigo. Albernaz perdeu e lá na sala fez-se silêncio. Cavalcanti ia recitar. Atravessou a sala triunfantemente, com um largo sorriso na face e foi postar-se ao lado do piano. Zizi acompanhava. Tossiu e, com a sua voz metálica, apurando muito os finais em “s”, começou:

A vida é uma comédia sem sentido, Uma história de sangue e de poeira Um deserto sem luz...

E o piano gemia.


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